Tese: Educação empreendedora

CartaFlorescer"A educação empreendedora desenvolve-se quando existe a integração da visão holística do ser humano na educação. Por outras palavras, existe uma relação positiva entre o desenvolvimento do espírito empreendedor e a educação holística e o resultado dessa relação é uma educação empreendedora.

(...)

A educação empreendedora desenvolve-se quando as características de todo o sistema escolar permitem o desenvolvimento integral do ser humano (...) quando as qualidades de atenção, conexão e reflexão-acção são desenvolvidas nas escolas de um modo sistémico."(1)

 
 
Mendes, M.T. (2011, (1)p.179-180; (2)p.1-4). Educação empreendedora. Uma visão holística do empreendedorismo na educação. Tese de Mestrado Ciências da Educação (versão não publicada). Univ. Católica Portuguesa. Faculdade Ciências Humanas. Lisboa. 
 
Dissertação de mestrado disponível para consulta no repositório da universidade:
http://repositorio.ucp.pt/handle/10400.14/8605
 
A presente investigação aborda a problemática do empreendedorismo na educação na perspectiva de uma investigadora que procura visualizar e cruzar os panoramas actuais do campo de investigação do empreendedorismo e da educação holística. Desse olhar surge uma visão renovada do empreendedorismo na educação e fundamenta-se uma abordagem holística da educação: uma “Educação Empreendedora”. A obra encontra-se dividida em três capítulos que compõem o corpo equilibrado da investigação na tentativa de introduzir, aprofundar e sintetizar quais as estratégias educativas que melhor se enquadram com a finalidade do estudo. No primeiro capítulo procede-se à análise das concepções vigentes de empreendedorismo e ao seu lugar na educação, através do estudo das principais teorias deste campo de investigação. Duas questões principais surgem como ponto de partida para esta parte: O que é o empreendedorismo? O que é uma educação em empreendedorismo? No segundo capítulo avança-se no estudo de novos paradigmas educacionais e na relação dos seus fundamentos e estratégias com o conceito de empreendedorismo. Nesta parte procura-se, fundamentalmente, a abertura deste termo a outras perspectivas paradigmáticas. A conceptualização de uma abordagem holística do empreendedorismo na educação pretende conseguir respostas às seguintes questões: O que é uma educação que contribui para o desenvolvimento do potencial empreendedor da humanidade? O que é uma educação empreendedora na perspectiva holística? O que é uma escola empreendedora? É a questão primordial do terceiro capítulo que investiga a possibilidade de existir uma escola que tenha já desbravado um caminho dentro desta nova abordagem. Nesse sentido procede-se ao estudo de caso de uma escola que contesta as orientações vigentes e rompe com o status quo educativo, exercendo o seu papel marcante de transformação social e de criação de uma comunidade educativa empreendedora. Essa escola é a Escola da Ponte – Escola Básica Integrada de Vila das Aves, Portugal. As evidências surgem: mais do que projectar uma educação em ou para o empreendedorismo é possível viver uma “Educação Empreendedora”.

This research approaches entrepreneurship in education from the perspective of a researcher who intends to visualize and intersect the current scenarios of entrepreneurship and holistic education investigation fields. From this view emerges a renewed vision of entrepreneurship in education and a reasoned holistic approach of education: an “Entrepreneurial Education”. This work is divided in three chapters that compose the balanced body of the research in the attempt to introduce, deepen and synthesize which strategic education best fit into the purpose of the study. The first chapter starts with the analysis of the current conceptions of entrepreneurship and its place in education, by studying the main theories of the research field. Two main questions arise as a starting point of this part: What is entrepreneurship? What is entrepreneurship education? The second chapter proceeds into the study of new education paradigms and their grounds and strategies in relationship with the entrepreneurial concept. This part mainly intends to open up the concept to new paradigm perspectives. The conceptualization of a holistic approach to entrepreneurship education tries to answer the following questions: What is an education that contributes to the development of the entrepreneurial potential of humankind? What is an entrepreneurial education in a holistic perspective? What is an entrepreneurial school? That is the primal question of the third chapter which investigates the possibility of the existence of a school that has already explored a way in this new approach. In that sense a case study is made of a school that refutes the current orientations and dismantles the education status quo, exercising its outstanding role in the social transformation and in the creation of an entrepreneurial education community. That school is Escola da Ponte (Bridge School) – Integrated Basic School of Vila das Aves, Portugal. The evidences arise: more than projecting an education in and on entrepreneurship it is possible to live an “Entrepreneurial Education”.
 
 
 
"INTRODUÇÃO: A Problemática Vigente
Educação em empreendedorismo? Não sei se estou a perceber..." Maria continua com génio de criança e estes termos dos adultos fazem-lhe alguma confusão. Uma vez que é uma menina esforçada e curiosa aventura-se no seu significado. "Bem, se ensinar é aprender e aprender é ensinar, empreender é construir... isso pode querer dizer que educação em empreendedorismo é aprender a construir ou será aprender a reconstruir ou, melhor, aprender a desconstruir para construir, ou eventualmente desaprender para aprender a construir, ou será...". Maria não pára de questionar, é o seu modo de ver e estar no mundo. Vamos ver onde isso a vai levar... "Pois eu, de facto, tenho ouvido falar muito nesse termo mas se calhar o melhor que posso fazer é ver o que significa dentro de mim. As pessoas até dizem que sou uma menina lutadora. Será que isso quer dizer alguma coisa? Se foi algo que aprendi na escola, que fui aprendendo ao longo da vida, que está relacionado com a minha família empreendedora ou algo intrínseco da minha personalidade? Não sei. Imagino que será um pouco de tudo...

Posso dizer que tenho uma vida muito vivida desde pequenita. Tive a sorte de poder brincar no campo quase todos os fins-de-semana e férias. Os meus pais deixavam-me literalmente "à solta". O meu companheiro era o meu irmão. Juntos fazíamos corridas de caracóis, ajudávamos o vizinho a apanhar as cebolas, deslizávamos no escorrega de erva, construíamos cabanas de giestas e muito mais. Namorávamos a Natureza com muita espontaneidade e os nossos pais descontraídos sentiam que isso era bom para nós.

Bem, mas será que esse brincar “livre" no campo me ajudou a ser, de certo modo, empreendedora ou será que aprendi a ser empreendedora na escola, na cidade?

A minha escola primária ficava no centro da cidade de Lisboa. Lembro-me de gostar da sensação de estar na escola, já nas salas de aula não tenho tanta certeza. Tinha professoras do "antigamente"... Até penso que senti uma reguada mas não foi na minha mão! O que mais gostava de fazer era de desenhar jardins de flores imaginadas e fazer jogos com os amigos. Lembro-me das carteiras de madeira e de como gostava de levantar e descer o tampo com os meus tesouros lá guardados. Lembro-me dos trabalhos de picotado com a base de esponja que não podiam sair do risco desenhado. “Isso perfeitinho!”. Aí quem me dera agora picotar por todo o lado como bem entendesse!

Eu sei que a minha professora Libânia da pré-primária gostava muito de mim. Lembro-me de uma reunião em que comentou com a minha mãe que eu era sossegada mas que me distraía facilmente, tinha dificuldades de concentração. O mundo que me rodeava e que via pela janela era muito apelativo!

No início da manhã, já na primária, a professora escrevia no quadro o "ditado do dia". Adorava as frases bonitas e cheias de saber, imaginava o que queriam dizer. Pensando bem, as recordações mais marcantes que tenho das aulas não são muito positivas... os ditados, as "idas ao quadro", as notas em "voz alta", as cadeiras que nos amarravam direitos, as dificuldades em decorar a tabuada, a descrição das regiões de Portugal, parecia que tudo isso não queria entrar, não tinha nada a ver comigo! E depois tinha que mostrar o que sabia em frente de toda a classe... doloroso, no mínimo. A minha mãe ajudava-me a decorar e no caminho para a escola repetia vezes sem conta mas, às vezes, bloqueava e, na altura em que era mais importante debitar, não saía nada. Só queria um refúgio... Na verdade, sabíamos sempre quem tinha mais dificuldades. "Parece que não aprendem! Vá, mais uma vez!".

Gostava muito de História, parecia fantasia dentro da realidade. Adorava desenhar os castelos e os conquistadores no caderno. No final da 4ª classe a professora fez um jogo de perguntas e respostas em que cada um respondia para todos ouvirem e ficavam com uma bolinha verde, encarnada ou amarela pintada no caderno, consoante a resposta. A minha única encarnada ficou marcada até hoje. Tinha pena quando alguém falhava... mas valorizava e invejava quem tinha verde. Eram mesmo bons! Mas quando se tratava de procurar as palavras difíceis no dicionário era rápida e certeira: "Encontrei professora!".

Gostava mais de brincar com os rapazes mas a minha melhor amiga era a Marta. Na fase em que fizemos pulseiras de fios de lã dedicámo-nos muito. Levei um cestinho de verga cheio de fios e partilhámos as pulseiras coloridas. Nunca mais me esqueci do olhar de uma das professoras do “antigamente”, senti que eu era uma criança tonta e exagerada. Se os adultos soubessem como sentimos e valorizamos o que pensam de nós, mesmo sem falarem...

No recreio era óptimo correr e jogar em equipa e, claro, adorava ganhar! Fui desenvolvendo com o tempo um espírito competitivo. Numa rapariga esse tipo de aptidões não eram muito valorizadas mas, não me importava, isso ainda me dava mais força para ganhar aos rapazes!

No final da 4ª classe tivemos que fazer exames e até veio uma inspectora de fora! A Manelita não se saiu muito bem... nunca mais soube dela. Fui fazer outro exame para entrar no Colégio onde ficaria até ao 12º ano. Aconselharam-me a ficar nas carteiras da frente, junto dos professores, para estar mais atenta. Deve ter corrido mal o exame, pensei depois.

Descobri a Matemática graças à Professora Cláudia. Que lindo, tudo fazia tão sentido! O suficiente ficou muito para trás. Fazia os TPC com gosto. Por estranho que pareça, ou não, a desmotivação voltou dois anos mais à frente com a Professora do "antigamente", Luísa. Tantos gritos e eu na fila da frente!... "Mas eu até gostava de matemática, mamã!".

“TRRIIIIMMM...” podia ser sinal de angústia profunda ou de alegria desenfreada para dentro ou fora da sala de aula. “O último ao meio!” dizia alguém, e ainda dentro da sala de aula todos corriam para o recreio (o último que chegasse ao meio do recreio ficava a apanhar os outros). Ainda hoje tenho também presente a sensação de surpresa quando o trabalho na sala de aula fluía profundamente e era, de repente, interrompido pelo “TRRIIIIMMM...”. “Já tocou? Ooohhh, passou tão depressa professora Ermelinda!”. Nessas alturas não me apetecia correr logo para o intervalo. E o “TRRIIIIMMM...” que parecia um pesadelo? O peso no corpo aumentava e o esforço sentia-se fisicamente ao subir as escadas para uma sala de aula indesejada. Estas sensações são inesquecíveis e comuns à generalidade dos alunos que as viveram.

No 2º ano fiquei surpreendida quando os meus colegas me escolheram para “delegada de turma”. Eu nem era muito popular mas dava-me bem com todos. Senti uma enorme responsabilidade e vontade de representar a turma. Adorava as reuniões, falava com os/as professores/as (quase) sem medo, como se tivesse algo de importante para dizer. Voltei a ser delegada várias vezes até ao final do liceu e só mais tarde percebi bem porquê.

A Professora Ermelinda de Inglês tratava-nos como filhos (apesar de ser mais para o "grupo dos queridos") e isso trazia carinho para a sala de aula. Cantávamos sempre que entrava na sala e tínhamos que nos colocar de pé "Good morning, good morning, good morning to you,...". Mas a disciplina mais marcante do Liceu foi Filosofia, com o Professor Roberto. Podíamos falar nas aulas uns com os outros e dizer a nossa opinião. O Professor falava a nossa linguagem, sentava-se na mesa, desafiava-nos, e nos testes nem acreditava que podia pensar por mim e pôr isso numa folha de avaliação!

Fui adaptando-me ao sistema e as notas também. Tinha pena que as notas dos trabalhos de grupo valessem menos do que as dos testes. Gostava muito de fazer trabalhos de equipa apesar de gerarem muitas vezes competição.

Entrei na universidade com curiosidade e esperança. “Organização e Gestão de Empresas... isso que dizer que vou aprender a gerir uma empresa”, pensava. Mas surgiram os exames de três horas, a separação entre "aulas teóricas" e "aulas práticas", os auditórios “cheios de vontade de não estar lá”, os professores que não sabiam o nosso nome, que não nos olhavam nos olhos, e que só queriam saber sobre o seu próprio conhecimento e a forma mais rápida de despejá-lo nas nossas cabeças.

Tinha aulas de manhã e, na verdade, do que mais gostava às oito da manhã era de quando subíamos as persianas para ver o nascer do sol! Sentíamos quase todos o mesmo, esse era um momento único a não perder. Aí os nossos sentidos estavam despertos... já nos exames cheguei a ficar várias vezes com a vista turva e a não conseguir focar bem o que estava a escrever. Esses momentos de tensão onde a nossa sabedoria é definida e posta à prova, ainda hoje me pesam e angustiam. Ainda por cima não me lembro de nada do que escrevi... só da experiência. Aprendi?

No último ano, o Professor Vergílio deu-nos dicas preciosas para a procura do ambicionado primeiro emprego. No final só perguntei: "Professor, e se quisermos criar a nossa própria empresa?" O saber veio aos soluços num curso de gestão de empresas: “Pois, também o podem fazer mas,... mas é sempre bom ganhar experiência primeiro.” 

Perdi-me (ou não)! A questão de fundo era se aprendi a ser empreendedora na escola?"(2)